• Lucas Ozores

Atlantificação do Ártico


O Ártico está esquentando mais rápido do que qualquer outro lugar da Terra. Nos últimos 50 anos, a temperatura aumentou mais do que o dobro do restante do planeta. E o que acontece nessa região evidencia de forma alarmante o impacto do aquecimento global e uma das mudanças fundamentais que os cientistas estão tentando entender, é a "atlantificação" de uma parte do oceano Ártico chamada de mar de Barents. Para entendermos esse efeito, faz-se necessário a compreensão do funcionamento da estratificação no oceano Ártico:


Fonte: BBC News, Ártico

Porque ocorre a estratificação no oceano Ártico?

O sal é um peso extra na água, no caso do Ártico, as águas haloclinas ("halo" significa sal e "clina", gradiente), são menos salgadas e, portanto, mais leves que as do Atlântico, que, por serem mais salgadas e pesadas, permanecem mais profundas. A camada com a salinidade mais baixa no oceano Ártico é a parte superior, onde o gelo se forma, e quando o gelo marinho se forma, ocorre um processo chamado rejeição da salmoura ou expulsão da salmoura, pelo qual os sais que estão na água começam a sair, ou seja, no processo de congelamento a água se livra dos sais. E quando esse gelo derrete a quantidade de sal que há é muito menor, formando uma camada de água doce.


No Atlântico, o gelo é mantido separado das águas quentes e salgadas, por uma camada intermediária de água fria chamada haloclina, que é uma camada da coluna de água na qual a salinidade da água muda rapidamente com a profundidade.

Fonte: AMAP

O que é a “atlantificação” ?


O termo “Atlantificação” foi usado pela primeira vez pelo Dr. Igor Polyakov, um pesquisador com especialidades no Ártico, em mudança climática e oceanografia física, e teve seu estudo publicado na revista Science em 2017. Ele e sua equipe descrevem este evento como "a estratificação que mantém separado o gelo das águas quentes do Atlântico está diminuindo em partes do mar de Barents".


Foi observado um aumento na temperatura da água na zona polar ártica, o que produz um aumento do ritmo do degelo. Isso faz com que a coluna de água mude e uma maior quantidade de água do Atlântico penetre no Ártico. Dando origem ao evento da “Atlantificação do Ártico”.



Fonte: AMAP


Nos últimos anos o Atlântico vem despejando nas bacias polares águas mais quentes e com maior salinidade do que antes. E esse fluxo anormal das águas do Atlântico é monitorado por mudanças na estrutura do oceano, verificadas por meio de boias ancoradas com instrumentos que medem a liberação de calor do interior do oceano para a superfície.


Existem evidências de que a haloclina está diminuindo no oeste do oceano Ártico, e os registros das âncoras mostram um enfraquecimento da estratificação no oceano oriental, na Bacia Eurasiana, com fluxos mais fortes de águas do Atlântico que impactam o gelo marinho. Com a diminuição da quantidade de gelo marinho na zona do mar de Barents, e no oceano Ártico em geral, aumenta o afluxo de água do Atlântico.



Fonte: BBC News, Dr. Igor Polyakov

Um estudo liderado por Polyakov no oceano Ártico oriental e publicado em agosto de 2020 mostrou que as águas quentes do Atlântico estão cada vez mais próximas da superfície. A pesquisa foi baseada em dados de âncoras oceânicas na Bacia Euro-asiática do oceano Ártico entre 2003 e 2018. A profundidade da haloclina varia no oceano Ártico. Nos locais estudados, a posição normal do limite superior da água do Atlântico era de cerca de 150 metros, e agora essa água está a 80 metros de distância.

Mudanças climáticas e o impacto a vida marinha


As mudanças no sistema ártico também podem ser intensificadas graças aos mecanismos de retroalimentação. Uma das mais conhecidas tem a ver com o chamado albedo, a quantidade de radiação solar que cada superfície reflete ou absorve.


Fonte: NASA, Mar de Barents

O gelo é uma superfície branca, portanto grande parte da energia é refletida. Mas quando ele derrete, a água ocupa o seu espaço, que se torna mais escuro e absorve mais radiação, o que por sua vez causa mais derretimento. A liberação anômala de calor das águas do Atlântico pode levar ao derretimento do gelo e isso poderia, por sua vez, colocar em movimento o mecanismo de retroalimentação do albedo.

O impacto da atlantificação no derretimento do gelo pode afetar o ecossistema em níveis fundamentais. As correntes oceânicas transportam nutrientes dos quais depende o equivalente às plantas do mar, o fitoplâncton, para a fotossíntese.


Fonte: revista Science, fitoplânctons

As plantas terrestres precisam de minerais e dióxido de carbono para crescer. O que acontece no mar não é muito diferente. Mas, em vez do solo, temos água do mar onde se dissolve o CO₂ e os sais que contêm elementos essenciais para a vida, por exemplo nitratos, que são um tipo de sais que contêm nitrogênio, e fosfatos que contêm fósforo.


O gelo derretido pode fortalecer a estratificação da coluna d'água, evitando que os nutrientes (que são mais abundantes nas camadas profundas) se misturem com as águas superficiais (nas quais o fitoplâncton os usa para crescer).

O Ártico é estratificado porque existem corpos d'água de densidades diferentes, sendo as menos densas em cima das mais densas. A água do derretimento do gelo tem salinidade muito baixa e, quando o gelo derrete, cria uma leve camada de água. Portanto, quanto mais gelo derrete, mais água leve se forma e ocorre mais estratificação.

O fitoplâncton, que é o primeiro elo da cadeia alimentar, é consumido pelo zooplâncton (organismos animais) de que os peixes se alimentam. E esses peixes são comidos por focas que, por sua vez, servem de alimento para predadores como ursos polares ou orcas. Portanto, os efeitos no nível de nutrientes podem reverberar por toda a cadeia alimentar, impactando o ecossistema.


Fonte: revista Science, Gaivotas-tridáctilas que incorporaram peixes do Atlântico em sua dieta.

Muitos organismos se adaptaram ao longo de muitos anos às condições do Ártico e seus ciclos estão intimamente ligados à formação e derretimento do gelo. "Muitos desses organismos (fitoplâncton, zooplâncton e peixes entre outros) são o nível fundamental do ecossistema. Se esses ciclos forem interrompidos, pode haver consequências para todo o ecossistema.

Além disso, os cientistas dizem acreditar que devido à atlantificação algumas espécies, por exemplo peixes, podem estar se movendo mais para o norte, impactando espécies locais, com consequências para os animais marinhos que dependem delas para se alimentar e espécies mais comuns de peixes no Atlântico, podem estar entrando no Ártico.


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